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O tráfico de animais é uma realidade dura que já movimenta bilhões de dólares mundialmente e representa uma grave ameaça para a sobrevivência não apenas das espécies traficadas, mas do próprio homem. Só a consciência poderá mudar esta tendência. É assim que o autor deste sensível artigo nos auxilia não só a perceber as facetas desta realidade, como nos inspira a atuar sobre...

A Liberdade em cada um de Nós
por Claiton Ferreira (*)

- Era uma linda manhã... dessas em que a gente acorda feliz, se espreguiça bem, abre os olhos devagarinho e fica extasiado com a natureza à volta, vendo quão prodigiosa é a vida... Meus irmãos ainda não haviam bem despertado e eu já estava saltitando todo empertigado de um lado para o outro... queria desvendar tudo, bisbilhotar, conhecer tudo... Lembro-me que esses eram os únicos momentos de descanso de meus pais, pois quando estávamos todos despertos, éramos três, não dávamos descanso para eles... sempre com fome... sempre querendo mais e mais... afinal, precisávamos crescer fortes e nutridos, pois teríamos uma vida pela frente... pelo menos era o que acreditávamos. Minha irmã... pobrezinha, tão sonhadora... queria ser mãe logo... pensava seguidamente no tamanho que seria sua prole, quantos lugares novos iriam explorar... passava horas sonhando... mas os seus sonhos foram roubados, bem como os sonhos de todos nós, de uma forma brutal e assustadora. Estávamos sozinhos, aguardando nossos pais retornarem com o alimento, todos aninhados e silenciosos, quando subitamente enormes garras entraram no oco da árvore onde ficava o nosso ninho e foram arrancando-nos de nosso lar, de nosso mundo, de nossa liberdade. A mistura de desespero e dor estampada nos olhos de meus pais ao retornarem é uma lembrança que ainda machuca meu coração... infelizmente eles também foram capturados, bem como todos os outros filhotes das árvores vizinhas. Foi um terrível dia em nossas vidas. Mas, ainda eu mal sabia que tudo estava apenas começando... Ao contrário dos outros animais da floresta, nossos algozes não queriam alimentar-se de nós e, com isso, acabar logo com nosso sofrimento; estavam nos prendendo por algum crime do qual tínhamos total desconhecimento, pois privaram-nos de nosso único patrimônio: a vida e a liberdade! Os tais seres "humanos" (descobri mais tarde o nome dos animais que nos aprisionavam), nos colocaram dentro de caixas e nos amontoaram uns por cima dos outros, tal qual pilhas de matéria inerte. Realmente, muitos de meus companheiros já estavam sem vida ali. Com pesar acompanhei a morte de meus irmãos, um a um, não resistindo ao tormento de uma viagem agoniada e infinda. Sofri muito ao ver a luz e o brilho esvair-se dos olhos de minha adorada irmã e, junto com ela, toda a prole que já havia concebido, porém apenas em pensamento. Senti que eles jamais teriam a oportunidade de saborear o gosto de uma manhã outonal... o gosto do orvalho úmido nas folhas, do pinhão novinho, a vibração do vento batendo nas asas e levando-nos vertiginosamente aonde quer que nossos sentidos indicassem... Perdido em minhas lembranças, não percebi, contudo, que já havíamos parado. Fui colocado dessa vez em uma pequenina gaiola. Era tão fria e incômoda, mas devia me acostumar, pois mais tarde descobri que seria meu lar para o resto de minha vida. Junto comigo ficaram outros filhotes, sobreviventes como eu, da morte prematura. Ah, quanto mais sofrimento ainda viria? De onde estava podia observar todo o movimento do lugar. Não fiquei muito tempo lá, mas consegui constatar, apavorado, os horrores que eram cometidos contra bichos da minha e de outras espécies também. Aqueles que estavam mais desesperados para fugir e aterrorizados com aquela situação eram os mais cruel-mente feridos. Devido à inquietação, seus olhos, janelas para o mundo e para a sobrevivência, eram feridos com pontas de cigarro. Muitos tiveram sua asas cortadas, outros ficaram surdos... e assim iam, já mutilados, para o campo de batalha, lutar numa guerra em que nem haviam empunhado bandeira. Por que nos torturavam tanto? O que de tão mal havíamos feito? Seria a nossa vida e liberdade pecados a serem purgados?...

***

- É,... essa vida marvada da peste tá sendo memo dura... levantá, bataiá aqui, bataiá ali e bataiá mais prá lá inda... mais nada miora, nada se enjeita... despois, às veiz, eu inté tenho pena dos bichinho... Num négo, tão pitoco, cum medo de dá dó nos óio, gritando feito besta... mais é com a venda deles que agente se aconsegue sustentá a famía: a muié mais seis, trêis inda bem novinho. Inda bem que tem bastante bicho inda aí... Se se acabasse, eu num pudia assustentá eles tudo... tamém, num sei fazê mais nada nessa vida!... se ainda fosse estudado, fosse dotô ô divogado, aí sim, era bem disparecido. Mais aqui, nu meio desse matão de meu Deus, aqui num tem trabaio não. Só essa judiação. Uns dia agente come inté os bicho memo. Só quando vem os gringo aparece o dinheiro. Aí agente disconta o prejuízo... Meus amigo que foro prá cidade grande tão passando é fome lá, num têm onde morá nem trabaiá. Pelo meno eu tô aqui por minha conta...

Só que agora tem que andá mais. Os bicho tão mais chucro. Tão se escondendo de nóis mais longe. Tem que entrá prá drento do matão, se não cê num pega nem sabiá... Acho que eles tão ficando mais cabortero e tão indo pra mais drento memo... num sei... só num quero que se acabe...

Tem um povo que vem aí veiz em quando. Eles vêm cuma conversa de que não dá pra pegá mais passarinho, que eles vão terminá, que eles tão... cumé memo o diacho da palavra? (...) tão entrando em istinção. É isso memo!... Istinção! Eles diz que inté tá proibido. Vai cabá tudo aí. Num pode mais. Dá inté cadeia prá nóis tudo aqui... Mais quem são eles? Eles num sabe é nada dessa vida... Se eu pará quem é que vai butá bóia na boca dos pançudinho lá de casa? Eu quero é vê essa aí! Eu quero é vê eles me pegá!

***

- Já faz tanto tempo que nem me lembro direito... Depois daquela terrível viagem dentro de caixas, finalmente cheguei ao meu destino final, ou melhor, ao destino que traçaram para mim. As pessoas deste lugar são diferentes das da minha terra. Aqui faz tanto frio... não gosto de lugares como este. Apesar de tantos anos e já ter até aprendido alguns ruídos que faço para conseguir comida, como “apfel strudel”, “fritz”, “katz”, "bier", "wurst", etc, ainda não me acostumei. Quando faço muito barulho, eles dizem que vão me mandar para um lugar onde as pessoas falam "sometimes", "alone", "hello", "fast food" ou "cheese cake"... Às vezes me pergunto o que um papagaio como eu está fazendo aqui? E a resposta é: não sei. Sinto tantas saudades do calorzinho da minha terra, das matas verdejantes, do gosto saboroso do pinhão, do colorido das flores e dos frutos... Gostaria que as pessoas parassem um pouquinho e pensassem como se sentiriam se de repente, contra a vontade delas, lhes fosse privada a liberdade e elas fossem re-metidas para um lugar muito distante da sua pátria, do seu lar, em um clima diferente, com pessoas diferentes, com sabores diferentes e, o que é pior, sem ninguém que lhe compreenda por perto!

A depressão é minha companheira constante... A única coisa que faço é passar os dias a esperar... esperar... esperar... a morte chegar.

***

- Papai, papai, compra vai, compra ! Eu sempre quis ter um passarinho assim... Eles são tão bonitinhos...

- Mas meu filho, os passarinhos são bonitos soltos e cantando livres na natureza!

- Mas eu sempre quis ter um e além do mais todos os meus colegas já tem... Ah! Papai compra !

- E quem é que vai cuidar dele? Tu tens atividades o dia inteiro, tua mãe não tem tempo muito menos eu... Tu sabes do que ele se alimenta? E se ele ficar doente? Como vai ser?

- Eu cuido quando chegar do colégio e acho que ele deve comer comida de passarinho, afinal, ele não é um passarinho?

- Minha filha, cada ave tem suas peculiaridades de hábitos alimentares que variam conforme a espécie, a região onde elas se encontram (se é quente ou fria, campo ou mato, terra ou água, etc.) e inclusive a época do ano. Ter um passarinho em casa representa uma grande responsabilidade, pois temos que propiciar a esse ser, do qual lhe foi tirada a liberdade, as condições de sobrevivência mais próximas possíveis do ambiente original.

- Ah, mas tanta gente tem... Uma gaiola com um bichinho desses cantando em casa é muito legal.

- Mas tu não precisas ter um passarinho preso em uma gaiola para desfrutar da companhia dele...

- Como assim?

- É simples. A gente coloca uma gaiola aberta, sem grades, só com a armação de madeira e dentro dela colocamos algumas frutas, alguns grãos como alpiste e painço e um pouco de água. Os passarinhos que gostarem de grãos virão comer o alpiste e o painço; aqueles que gostam de frutas virão comer as frutas e até os que gostam de insetos também virão, pois onde tem frutas, tem insetos! Não é legal?

- Mas não vão vir só pardais? Tem pardal por tudo aqui...

- Bem, talvez um bom contingente seja formado por pardais, mas também virão rolinhas, sabiás, canarinhos-da-terra, cambacicas e às vezes até beija-flores por causa da água. E além de tudo isso, todos estarão livres, querida!

- Mas eu queria ver cardeais, azulões, saíras...

- Um dia eles já foram muito comuns por aqui, mas o egoísmo das pessoas, que os queriam apenas para si próprias, os aprisionaram em gaiolas e quase os exterminaram da natureza. Se nós fizermos a nossa “gaiola da liberdade” e ensinarmos outras pessoas a fazerem o mesmo dentro de alguns anos teremos muitos passarinhos voando por nossas casas como cardeais, azulões e saíras. Que tal?

- Puxa papai, adorei a idéia. Vou já convidar toda a minha turma para fazermos algumas dessas lá na nossa escola!

(*) Claiton Ferreira é biólogo e consultor ambiental.

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