ESVAZIANDO O JARRO
Monja Zen Angelika Zuiten
Meu primeiro encontro com a prática do Zen Budismo aconteceu num templo no Japão. Na Alemanha eu fora introduzida a vários aspectos da cultura japonesa em meu trabalho e, com meu crescente interesse nela, re-solvi um dia ir visitar a fonte.
Duas semanas após minha chegada ao Japão tive um inesperado tempo livre reservado para minha primeira experiência com o Zen. Alguém me falara de um templo nas redondezas que recebia estrangeiros e cujo abade falava inglês. Pouco tempo depois, embarquei na Chuo Line para Hatsukari e segui as instruções que me tinham dado. Elas me levaram a uma caminha-da através de uma vila e a escalar a montanha. Durante uma hora não encontrei nada além de árvores de floresta e o murmurante regato da montanha. Foi quando, escalando uma ladeira particularmente íngreme, lá estavam as instalações de Zuigakuin à minha frente. Eu tinha chegado ao destino.
Descomplicadamente, fui recebida e convidada a acompanhar a rotina diária dos estu-dantes de Zen de diferentes nacionalidades, gêneros e experiências. Aprendi que seguíamos as regras monásticas Bendo-ho instituídas por Mestre Dogen no século 12, e que Zuigakuin era um ramo do famoso templo principal da Escola Soto-Shu de Zen Budismo de Eiheiji . Antes de estar ali, eu não sabia nada a respeito disso.
1. O Início
Se somos não tendenciosos, abertos e sem expectativas, qualquer experiência pode nos tocar profundamente. Cada novo começo nos move para mais próximos da vida em si. A simplicidade e a pureza do Zen na solidão da floresta nos põe diante de nós mesmos. Sem as conveniências da eletricidade, nós nos ligamos na existência de forma simples. Experienciando nossa vida em dependência direta da natureza, a qual segue suas próprias leis sem nenhum sentimento para com os desejos e necessidades humanas, abrimos os nossos olhos para o que realmente importa. Bendo-ho em Zuigakuin foi ao mesmo tempo calmante e inspirador, chocante e curativo, despojado e enriquecedor. Ilusões, ideais, valores e conceitos dissolveram-se facilmente na segurança dessa tradição espiritual vívida. Dignidade humana aqui era a matéria de todo dia. Mais do que qualquer coisa, a presença do Mestre testemunhava isso. Nas refei-ções de orioki ou cantando Sutras, em uma consulta particular ou nos momentos de faxina intensa no prédio durante o Samu – aquela era a essência contida no estilo, no Zazen e em os todos os rituais.
Enquanto estivermos completamente conscientes de nossas incapacidades e ilusões humanas podemos sentir e preencher nossa vocação espiritual aceitando a nossa natureza de Buda. Que presente! Final-mente estar apto a compreender a nossa tendência ao engano da maneira certa! Que alívio! Acabou a vida de bravatas de sempre; saber tudo, sempre ter tudo sob controle, de sempre ser perfeita. De repente, as coisas entre o céu e a terra rolaram para o lugar certo...
Abrir-se para o Budismo, passo a passo, seguindo uma certa maneira de viver, parecia viável; investigar os ensina-mentos através da experiência pessoal, confiável.
Apesar do estilo de vida recluso, o mundo exterior estava completamente presente. Não faltava nada, pelo contrário, mostrava-se mais claro do que antes. A decisão de ficar e largar todos os meus interesses e atividades anteriores foi fácil. Como se tudo fora preparação, não precisava mais seguir uma “falsa via”. Sem nunca ter estudado uma palavra dos ensinamentos de Buda, eu sabia que tinha encontrado um caminho que tinha o potencial de levar à realização questões últimas sobre o mundo e a vida humana. Embora aquilo me assustasse, eu tinha certeza de que tinha nascido apenas para encontrar aquele caminho e, agora, chegara a hora de assumir a tarefa de minha vida.
Não ter conhecimento não foi problema – tudo que precisava era confiança, esforço e dedicação. Eu estava pronta.
2. Espaço Aberto, Nada Sagrado
Eu estava pronta, mas o mundo não. Logo depois de minha grande decisão, Moriyama Roshi nos informou que estaria indo para o Brasil ser abade num templo em São Paulo. No dia 3 de outubro um novo abade, que não falava inglês, foi empossado em Zuigakuin e todos os estudantes se espalharam nas dez direções...
O tempo que se seguiu conduziu-me a vários centros budistas, monastérios e mestres do Japão e da Europa. Eu procurava um cenário que me permitisse continuar a prática como a encontrei em Zuigakuin ; mas não podia encontrá-la. Aprendi, em vez disso, a olhar os ricos e profundos ensinamentos de Buda, a pôr a minha prática de acordo com minhas tarefas diárias e apreciar o contato com outros interessados em meditação.
Ainda assim, nunca tive a menor dúvida de que, se eu quisesse dedicar minha vida ao caminho budista, precisava estudar com um mestre, num mosteiro, e no ambiente da cultura que fizera brotar as tradições que eu tinha escolhido. Durante minha estada no Japão, enquanto completamente destituída de habilidades intelectuais e formas familiares de comunicação, me deparei com inúmeras situações onde adquiri alguma compreensão acerca do meu caminhar. Depois de experimentar a vida de Zuigakuin , meus olhos pareciam ver os traços do Buda por toda parte no Japão, desde meros aspectos convencionais da vida social até nas artes, nos negócios e na família. Assim, o fato histórico de desenvolvimento mútuo da cultura, vida social e religião, tinha se tornado a minha experiência pessoal, a qual eu poderia agora empregar também na minha própria experiência européia em relação ao Cristianismo. Mas, isso tornava mais indispensável ainda estudar Budismo numa de suas culturas originais.
3. Retorno a Zuigakuin, Japão
Criando Vida Religiosa
Quatro anos depois, mestre e discípulo estavam outra vez juntos no templo. Mestre–discípulo–templo: unidade tríplice. Sem mestre, nenhum discípulo; sem discípulo, nenhum templo; sem templo, nenhum mestre e vice-versa. Nenhum deles existe por si próprio, mas apenas estando relacionado aos outros. Se as partes estão em harmonia, todas as criaturas vivas se beneficiam. Se um está faltando ou não preenche completamente seus objetivos, tudo desmorona e torna-se unilateral, irreal, uma casca vazia. O mestre é mestre partilhando incontinente o seu ser puro a cada instante e incondicionalmente com todos. Então, ele representa a iluminação e a compaixão do Buda, o vaso sangüíneo da transmissão do Darma vivo que se realiza na sua própria vida.
O discípulo é discípulo relacionando sempre e completamente todas as suas ações e existência ao mestre; prestando atenção a todo traço de separação surgindo dentro dele, e, por meio de seu crescente amor e respeito pela prática, esforçando-se para superá-lo. Assim, o discípulo representa a sede de todo ser senciente pela libertação do ciclo de sofrimento e a ânsia do mundo pela compreensão de sua verdadeira natureza.
O templo é templo acomodando toda a herança deixada pelos que trilharam o caminho antes de nós, preservando-a para ser usada hoje. É um lugar de prática através de ferramentas, textos, rituais, maneiras de comer e de vestir, tudo isso servindo para estimular e expressar a experiência religiosa. Assim, cada templo representa o abrigo que se pode encontrar voltando-se confiantemente a uma tradição.
Então, a vida do templo pode ser descrita como a interação harmoniosa da forma, devoção e continuidade – ou; de mundo, sacrifício pessoal, e compaixão universal. Podemos compará-la com o surgimento do fogo, o qual consiste de lenha, faísca e chama. A lenha pode parecer matéria insípida, mas é necessária para que a chama se agarre e possa alimentar-se dela. Primeiramente, entretanto, ela precisa do toque da faísca, para que a energia nela contida possa ser revelada; depois o calor intenso e a qualidade persistente da chama mantém o fogo aceso.
Da mesma forma templo, discípulo e mestre estão trabalhando juntos. Mas, o que está realmente sendo criado? O que está surgindo através do esforço combinado dos três? É a vida candente dos Três Tesouros. O Buda se realizando através dos esforços deles, nutrindo-os ao mesmo tempo; o Darma sendo despejado no mundo através deles e mantendoos no caminho ao mesmo tempo; a Comunidade Perfeita – anunciando o seu deleite para eles e, ao mesmo tempo, inspirando-os a empenhar-se pela harmonia de todas as coisas.
Todo ser humano que acorda para esta via de grande liberação só pode estar repleto de gratidão e felicidade, pois ela nos dá motivo para manter nossas esperanças, seja qual for a circunstância que possamos estar enfrentando na vida.
Takuhatsu – O Despertar de Dana
Caminhando atravessamos a aldeia, cantando sutras de casa em casa – a passagem das estações fica estampada na mudança dos arranjos florais da entrada, nos legumes espalhados para secar no pátio, nos sacos cheios de arroz recém-colhido empilhados no genka, e final-mente nas roupas, posturas e faces das pessoas. Se brilha o sol, brilham também as faces e bro-tam as palavras facilmente. Assim é no mundo inteiro. Mas, as palavras de Takuhatsu são especiais. A monja e a dona de casa encontram-se e trocam rápidas palavras. O encontro delas traz à tona o ditoso mundo de Dana . A monja santifica o mundo e o mundo nutre a monja. Ela vive o que a gente da aldeia pressente. Essa gente a mantém viva. O seu encontro no Takuhatsu é um gracioso brinde para ambas as partes. O aldeão ou a aldeã alcançam a sua própria aspiração espiritual; a monja alcança a razão original de abraçar a vida de retirante: to gan shu jo , ajudar a todos os seres sencientes. Cada vida contribui para o bem estar da outra, é vivida de forma especial para o benefício do outro. Durante o Takuhatsu a fonte e o fruto da prática religiosa encontram-se face a face no degrau da porta, e trocam. Eles trocam olhares e palavras; palavras de respeito, simpatia, encorajamento, que cuidadosa-mente selecionam, cada qual do seu mundo, para exprimir interesse na compreensão do outro. Embora possa a monja partilhar de algumas experiências da mulher, da criança, do avô à porta, a vida deles é apenas uma memória para ela. Desde que ela decidiu ser um instrumento do Darma, é uma servente da tradição religiosa e, desta forma, do mundo inteiro. Sua vida cotidiana é diferente da deles e, para eles, ela é apenas uma mensageira da vida de retirante.
E, novamente, ela raspa sua cabeça. Este é um favor, um agrado imensurável! As pessoas da aldeia só podem admirar a beleza da cabeça raspada, e admiram. A monja pode real-mente fazê-lo; mas só por causa dos que continuam a viver no contexto social de suas famílias e comunidades. Esta relação mútua é a base da vida religiosa no Budismo. Para cada retirante a prática do Takuhatsu guarda um profundo significado. Deve-ria ser meta para monges ou monjas budistas do Ocidente ficar algum tempo num país onde esta prática seja tradição. Os séculos vindouros hão de mostrar até que ponto e de que forma a integração de Takuhatsu na sociedade ocidental será possível.
A esta tradição profundamente prostro-me, e quero agradecer àqueles que tornaram possível minha contribuição para o despertar de Dana através dos meus próprios passos, corpo e voz.
4. Esvaziando o Jarro
O príncipe Sidharta queria ver o mundo fora do palácio do seu pai e daí recebeu a primeira inspiração para sair em busca de liberação do sofrimento.
Bodidharma, querendo salvar todas os seres sencientes, “Veio para o oeste” e trouxe o ensinamento do Buda para uma terra onde ele era desconhecido.
Eihei Dogen foi atraído à China pelo anseio de encontrar “O Caminho Antigo”, e foi lá que recebeu as instruções e intuições que trouxe, então, de volta ao Japão.
A história budista está repleta de exemplos de buscadores do caminho que vão buscar numa cultura estrangeira aquilo que não puderam encontrar no seu próprio país. Mas, enquanto nos primeiros séculos a divulgação do Darma se deu da Índia para o Leste, nos dias de hoje essa direção foi invertida. O Oeste se vira para o Leste, mas não mais para levar o seu próprio progresso.
“Estudar o Caminho é estudar a si mesmo” - não há melhor maneira de começar do que vivendo num ambiente pouco familiar onde somos confrontados com as várias facetas daquilo que pensamos que é o nosso eu. A confiabilidade dos ideais é logo levada aos seus limites, e lutamos contra todas as dificuldades para sobreviver. Eu estou convencida de que, até um certo ponto, algumas dessas experiências foram partilhadas por meus famosos predecessores. Por trás das gloriosas imagens e palavras que descrevem suas conquistas havia, em cada caso, um simples ser humano tentando viver sua vida humana da melhor maneira possível. Porém, os desafios que eles enfrentavam diante de suas convicções religiosas ajudavam na compreensão das visões errôneas e, com isso, no estudo do eu.
Para mim, enquanto vivia no Japão, onde tudo a que estou acostumada é diferente, difícil ou até impossível, muitas “habilidades espirituais” se tornam uma necessidade bem concreta. A exigência de “desprendimento” acompanhou-me por dias e noites, sem nenhuma trégua física, mental ou emocional. A “mente de principiante” era uma necessidade absoluta diante das privações que senti de contato, comunicação, hábitos e vários nutrientes. “Esvaziar o jarro” foi a conseqüência natural de minha luta para ser capaz de ficar e continuar a prática, diante de todas as formas de desconforto que encontrei. Para a miséria não havia escapatória, vim porque quis, e eu sabia disso. Carregar porém essas tensões sem deixar de viver a prática foi o melhor remédio para esclarecer e fortalecer, passo a passo, os meus motivos religiosos.
Há um conto de fadas alemão sobre “Alguém que saiu procurando aprender sobre o seu medo”. Perguntando a mim mesma sobre o ímpeto de minha ida ao Japão, tive de admitir que, no início, foi apenas uma leve inclinação no sentido de dar este passo; não havia nenhuma intenção clara. Eu queria encontrar algo original e estudá-lo; uma tentativa de pôr minha vida de acordo com o seu verdadeiro propósito. Durante uma de minhas primeiras conversas com Moriyama Roshi, ele mencionou minha “mente buscadora”. Embora eu não pudesse entender a que ele se referia, senti-me instantaneamente compreendida. Sete anos depois (pelo menos isto eu posso dizer), acabei aprendendo sobre a existência dos Três Tesouros e conheci a mente engenhosa de Mestre Dogen. Os Três Tesouros nos possibilitam voltar para casa outras vezes dando um passo para fora das preocupações e confusões que criamos e entrar, em vez disso, na sua paz. A mente de Mestre Dogen nos permite acomodar-nos na vida dos Patriarcas seguindo o exemplo dele. Então, todos os Darmas podem brotar sem obstáculos e o “Estudo do Caminho” é realizado através do nosso corpo, fala e mente para o benefício de todos os seres sencientes. Isto pode ser feito a qualquer momento e em qualquer lugar neste mundo.
Recordo-me dos anos que passei no Japão – foram tempos difíceis e de muitos embates. Mais uma vez, curvo-me àquela “mente buscadora” em mim, que me fez vir e ficar. Através do desafio purificador de um ambiente estrangeiro, o apoio da cultura budista, e a confiança em meu mestre, esta mente se fortaleceu e ajudou-me a suportar os momentos de confusão, dúvida e briga com o meu destino. A vida de praticante também ajudou-me a ultrapassar muitos obstáculos simplesmente continuando a fazer o que precisava ser feito: "agora levantar - agora Zazen - agora cantar - agora a refeição, etc".
Pelo menos a tormenta se acalmou, não porque a vida tenha se tornado mais fácil, nem por sentir-me familiarizada com a comida, a língua e os costumes japoneses (isso tudo ainda é estranho para mim); mas, porque o verdadeiro lar encontrei dentro de mim mesma. Com o passar do tempo tornei-me consciente de algo cumulativo como uma “substância religiosa” que me apoia e que vai aos poucos substituindo o chão que foi-me retirado de baixo dos pés quando aqui cheguei. E assim, forçada a procurar um novo apoio, pude encontrá-lo na minha devoção aos Três Tesouros e na prática de Dogen. Isto permitiu-me andar livremente aonde quer que me leve o Darma.
Afinal, quando desisti de tentar ser a "Angelika" que eu conhecia, pude descobrir a existência de uma Angelika diferente. Mas, esta tem um novo nome: ZuiTen!
Possam todos os seres encontrar felicidade
Possam todos os seres sentir-se bem
Possam todos os seres encontrar a paz