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Foi à última hora que decidimos ir a Curitiba, três da equipe Bodigaya, para participar do evento que iria se realizar ali conduzido por S.S. o 14º Dalai Lama, mais pela insistência e empenho de um dos nossos que já tivera um contato mais próximo com S.S. em sua última visita ao Brasil, em 1992. Naquela ocasião, S.S. participou da ECO-92 no Rio de Janeiro e depois percorreu várias capitais para dar palestras e receber homenagens. Em Porto Alegre ele falou sobre valores universais nas duas principais universidades, a UFRGS e a PUC, com presença maciça de público de todas as origens e crenças. Agora, em Curitiba, abril de 1999, ele iria conduzir um seminário de dois dias sobre “Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana” e concederia uma entrevista coletiva à imprensa. Foi assim, meio de improviso, que procuramos trazer ao leitor mais...

Um Encontro com Dalai Lama
Por Equipe Bodigaya

Nós queríamos participar de tudo sem saber, no entanto, se conseguiríamos. Não tínhamos credenciais por não sermos jornalistas profissionais e apenas um de nós havia conseguido fazer a sua inscrição ao local do evento. Talvez este fato tenha sido o primeiro sinal de que nossa equipe, de fato, se poria a caminho, pois coincidentemente ou não, por acaso ou não, ele pegou o último lugar, o último ingresso ainda disponível há duas semanas antes do seminário. Um membro da Bodigaya estaria junto ao Dalai Lama, os demais teriam de ficar no reservado externo, para assistir tudo através de quatro monitores de TV (?!), algo pouco alentador, além de dispendioso -ir até o Paraná para ficar do lado de fora!... Foram questões que pairaram no ar antes de nossa decisão final, mas que o destino, ou melhor, o carma, soube responder.

Chegamos em Curitiba domingo à noite e no dia seguinte, bem cedo pela manhã, nos dirigimos à “Ópera de Arame”; ali chegados, providenciamos os nossos credenciamentos e (milagre!) saímos dali com dois crachás de “Imprensa”, com acesso livre a todos os locais, inclusive à entrevista coletiva, e um crachá de acesso à “Ópera”. Com esta combinação especial, todos estávamos habilitados a ver e testemunhar tudo que fosse acontecer lá dentro! Não podia ser melhor, éramos só sorrisos... ou será que o nosso carma guardaria ainda mais cartas na manga?

Nosso fotógrafo disparava flashes entusiasmados, esquadrinhando cada gesto, cada movimento, cada expressão facial de Sua Santidade na busca do melhor ângulo, da melhor foto. A Ópera de Ara-me assemelha-se a uma grande espaçonave em forma de disco, com uma cúpula totalmente transparente que permite uma visão ampla da exuberante natureza ao seu redor; conta com um palco amplo, na forma de uma grande "mordida" no disco maior que, por sua vez, contém os mil e oitocentos lugares do público. Do centro do palco o Dalai Lama, acomodado com suas pernas entrecruzadas sobre uma bela cadeira, prendia a atenção de todos os presentes, dizendo:

"As nossas atitudes com relação às experiências que vivenciamos se assemelham bastante às atitudes dos demais seres ou de qualquer outro animal. Se alguma coisa nos traz uma sensação agradável ou de prazer, que nos parece bela, nós nos sentimos felizes, relaxados, e tendemos caminhar ao encontro dela ou de buscá-la. Pelo cont rário, quando algo nos perturba, nos parece feio ou estranho, algo que nos é desagradável ou nos traz aversão, isto provoca em nós uma sensação de medo, nos faz sofrer e nós tendemos a evitar ou fugir de tal experiência. Isto também acontece com os animais. Boa parte das vezes a nossa resposta às experiências é automática, uma reação, que na maior parte das vezes não passa por uma análise mais profunda, analítica. Contudo, os seres humanos são dotados de um alto grau de capacidade mental, capacidade elaborativa do pensamento, e isto é uma diferença importante com relação aos animais. Então, diante de uma determinada circunstância, o ser humano pode ponderar se aquilo irá ser benéfico, se aquela determinada situação poderá ou não conduzi-lo a um resultado bom ou não. Assim, pode ser que ao concluir que uma situação acarretará sofrimento, uma pessoa fique preocupada, por exemplo. E, também devido a esta grande capacidade de análise mental, uma pessoa pode chegar a conclusão de que uma coisa aparentemente benéfica e boa, algo que superficialmente parece bom, mas bem lá no fundo não o é, não trará resultado satisfatório, positivo, e resultará em sofrimento mais adiante. Muitos de nós gozam de conforto material, mas estes bens que nos cercam basicamente nos trazem conforto ao nível da sensação. Porém, se internamente nós não temos uma situação agradável, se nossa mente não está bem, então o conforto exterior, por maior que seja, não tem o poder de nos acalmar, de nos deixar melhor ou de nos proporcionar um estado mental tranqüilo. Já se uma determinada pessoa não tem uma situação material favorável, mas ela encontrou em sua mente um estado de equilíbrio, de segurança e calma, ela pode fazer face aquela dificuldade material que lhe é contrária. Então há uma clara distinção entre o prazer ligado aos sentidos, à materialidade, e aquilo que provém do plano mental. Quando adquirimos uma certa tranqüilidade no plano mental, isto pode nos auxiliar muito a ultrapassar dificuldades no plano inferior dos sentidos ou da materialidade, porém, a recíproca não é verdadeira. Então, como exemplo, podemos ter duas pes soas passando pelo mesmo tipo de sofrimento físico, mas, se uma delas vê naquela dificuldade algum sentido, se ela percebe naquela situação de sofrimento alguma oportunidade de resgate de algo, ela terá uma determinada atitude. Se a outra pessoa não vê nada positivo naquela mesma experiência, então, apesar de ambas sofrerem o mesmo tipo sofrimento externo, isto produzirá estados mentais e de ânimo totalmente diferentes em cada uma delas.

Como seres humanos nós buscamos a felicidade e queremos nos afastar do sofrimento. O desenvolvimento material é importante, mas talvez, por si só, não seja suficiente. Então, eu penso que, para podermos alcançar aquilo que buscamos, nós não deveríamos negligenciar tanto a espiritualidade. Quando digo "espiritualidade" não estou falando necessariamente em religião, ou num determinado credo religioso. Podem haver duas formas de espiritualidade: uma religiosa e outra sem uma fé religiosa. Eu prefiro falar aqui em termos de uma espiritualidade que acontece sem uma fé religiosa específica.

Então, nós, seres humanos, temos uma capacidade que nos é única, que é a capacidade de investigar, analisar e é dentro deste contexto que o desenvolvimento ou treinamento da mente se torna importante."

Assim, o Dalai Lama seguiu por toda a manhã; aplainando consciências com a mesma simplicidade, conhecimento e zelo com que um velho camponês prepara a terra para a semeadura. Paulatinamente, as pessoas iam sentindo sua vibração firme, clara, paciente e radiante, como se estivessem, boquiabertos, assistindo ao nascer do sol pela segunda vez no mesmo dia.

A primeira manhã, então, escoou rapidamente, quase sem que o notássemos, pois havia em nós e em todos um clima de euforia por estar lá, por poder ver o Dalai Lama e por reencontrar amigos e conhecidos de todo o Brasil. Encerrados os trabalhos da manhã, nosso fotógrafo insistiu para que fossemos até a entrevista coletiva; já que tinhamos ido até ali, por que não tentar aproveitar tudo? Com alguma relutância de parte da equipe, procuramos nos deslocar para o local da entrevista coletiva (Grand Hotel Rayon) no cen-tro de Curitiba o mais rápido possível, pois o tempo se estreitara. Pegamos o primeiro ônibus que surgiu e, após chegarmos ao centro da cidade, tomamos ainda um táxi que nos deixou à porta do hotel.

Uma vez ali, nos surpreendemos com a facilidade de acesso ao auditório reservado para isso e com o número expressivo de “penetras”. Ninguém exigiu identificação ou credenciais, nenhuma verificação de qualquer espécie. Fomos entrando no salão de reuniões do hotel como se fossemos hóspedes indo ao saguão. Chegamos a comentar sobre a falta de segurança para Sua Santidade, mas, ao final, relaxamos ao pensar na adequação do fato. Tenzin Gyatso não combina com truculência ou rigidez. Lembramos com alegria que, ao descer do avião em 92 havia um destacamento de homens da Brigada Militar esperando-o na pista para conduzi-lo. Sua Santidade, que se diverte muito com a quebra geral de protocolos pelo mundo afora, observando os dois robustos guarda-costas que marchavam mecanicamente lateralmente a ele, estendeu-lhes imediatamente as mãos. Um de cada lado, os soldados perderam o "rebolado" e tiveram de andar normalmente como duas pessoas comuns e felizes por, num simples toque, descobrirem-se como seres verdadeiramente humanos. Toda a cena ganhou um novo conteúdo e significado. Num gesto simples, toda a sabedoria sem palavras, que simplesmente se manifesta... Quem além dele estaria tão atento ao sofrimento, à condição às vezes imposta às pessoas mesmo nas situações mais corriqueiras?

A mesa onde o Dalai Lama iria sentar-se estava cercada de câmeras de TV e fotógrafos e mal se podia enxergar em meio a toda essa parafernália. No meio do público, gente famosa (várias atrizes de TV), repórteres e muitos, muitos “furões”. Entre os presentes, convidados ilustres e apoiadores do Comitê de auxílio ao Tibete.

Sua Santidade falou brilhantemente sobre alguns dos dilemas atuais como ecologia, poluição e guerras, assim como sobre valores humanos e compaixão, seus temas habituais. Durante os intervalos das traduções ele chegou a brincar com o nosso fotógrafo, fazendo caretas e poses para a câmera. Aguardamos ansiosamente uma oportunidade de render-lhe uma homenagem, de ter um contato mais próximo, oferecendo-lhe o “katag” (um lenço branco) de acordo com a tradição tibetana. Esta oportunidade surgiu no final da entrevista quando um dos nossos tomou coragem e se ergueu, e fez menção de oferecer o lenço; S.S. chamou-o com um gesto e este, com toda reverência, ofereceu o “katag” ao Dalai Lama. Pipocaram “flashes” de câmeras fotográficas e houve um grande reboliço na sala. As outras pessoas, ao verem que era possível se aproximar de S.S. saltaram de seus lugares. Com isso, formou-se um pequeno tumulto, com os seguranças mandando todos sentar e o tradutor bradando que o deixassem terminar o que lhe cabia. Logo em seguida, outras pessoas puderam ter seu breve contato com o Dalai Lama e, assim, quase inacreditavelmente, mais outro da equipe pôde dar as mãos a Sua Santidade para uma bênção.

Depois deste acontecimento, nas três sessões seguintes na “Ópera”, pudemos constatar que S.S. nos reconhecia e, às vezes, parecia nos observar. Quando um dos nossos resolveu enviar uma pergunta à S.S., ele gesticulou para o seu assistente e não é que a nossa pergunta, que fora recolhida de nós no meio da platéia, sob seu olhar, foi a primeira a ser respondida?

A medida que o seminário e os ensinamentos avançavam, começamos a ter uma clara dimensão do que significa estar próximo de um grande mestre e receber dele o germe de sua luz. Cada encontro aprofundava o anterior e crescia em nós um sentimento de união. No fundo, estávamos ali por isso, por esta união íntima de que o ser humano é capaz, este amor inexprimível entre consciências irmãs, começamos a compreender porque é que havíamos decidido estar ali, empurrando compromissos pessoais, superando obstáculos internos e externos de toda a natureza. Tudo isto inspirado pela presença do Dalai Lama. Ele, encarando cada um dos presentes nesta irmandade espiritual, ensinava e soltava entre outras pérolas:

"Da mesma forma que no plano material nós vamos buscar nos cercar de coisas que vão trazer segurança e solidez à nossa vida, no pla no mental nós deveríamos procurar descobrir e cultivar as atitudes mentais que vão nos dar uma base igualmente segura e, ao mesmo tempo, deveríamos procurar identificar quais são os elementos em nossa mente que têm um potencial danoso ou destrutivo para as nossas vidas e para a felicidade que buscamos. Assim, teríamos condições de procurar trabalhar para sobrepujar estes fatores negativos ou indesejáveis em nossa mente. O treinamento da mente não é só importante como também possível. Somos dotados de um cérebro brilhante, com qualidades e capacidades de aprendizado que permitem este treino e esta qualificação. Se nosso cérebro fosse incapaz de aprender ou alterar-se, então não haveria sentido em se falar sobre como realizar isto e seria impossível mudar nossa atitude. De acordo com minha própria experiência, é possível treinar e moldar a mente. Se você encontra uma atitude mental adequada, correta, se você está sereno em sua própria mente, ainda que você enfrente condições hostis, você vai se sair bem. Mas, do contrário, não importando quanto dinheiro você possa ter, ou quantos amigos, etc, se a sua mente estiver confusa, agitada, intranqüila, você não vai conseguir sossegar ou alcançar a felicidade. Por exemplo, quando eu era criança, eu tinha o "pavio muito curto". Era uma herança de meu pai que também era assim "estourado". Porém, à medida que fui crescendo e fui sendo educado e me treinando nestes aspectos, quando comecei a examinar mais profundamente qual o sentido da raiva, qual o sentido do ódio, qual o sentido de ser "estourado" e, ainda, examinando cuidadosamente as vantagens de manter uma atitude de compaixão e paciência e o que isto pode trazer... bem, na medida em que fui procurando exercitar isto, incorporar estes valores positivos, eu fui observando uma mudança paulatina em minha vida e, com isto, eu fui sendo cada vez mais beneficiado. Então, esta possibilidade de mudança está disponível para todos nós seres humanos. Ainda hoje eu posso ter momentos em que estes sentimentos negativos surgem, mas num nível muito mais reduzido ao que eu experimentava antes e que não chegam a me perturbar tanto quanto antes.

A IMPORTÂNCIA DO AMOR E DA COMPAIXÃO

É importante saber o que significa compaixão. Muitos pensam que compaixão é sentir dó ou piedade, mas este não é o entendimento correto para compaixão. A compaixão não é apenas um senso de respeito ou preocupação com relação à outra pessoa, ela se assenta sobre a percepção da igualdade entre todos os seres. Todos os seres têm igual direito à felicidade. Então, se você está diante de alguém que está passando por grande sofrimento, você reconhece que esta pessoa tem direito igual ao seu à felicidade e isto gera em você uma atitude de preocupação e respeito pela outra pessoa, além de um senso de auxílio a ela. Esta atitude é a compaixão. Às vezes se confunde o apego que se tem por amigos, pessoas ou parentes e a vontade de ajudá-los como compaixão, mas a verdadeira compaixão também não é movida por apego. Isto não é a verdadeira compaixão. Quando estamos voltados aos outros, mas a nossa atitude está fundamentada no apego, a verdadeira compaixão não fluirá de nós; se a outra pessoa apresentar, por exemplo, um comportamento que não nos agrada, nosso sentimento em relação a ela muda e, com isto, acaba também a nossa "compaixão". Aquilo que, num primeiro momento, nos trazia para perto daquela pessoa muda e, podemos até mesmo vir a odiá-la a partir de então.

A compaixão que se assenta sobre o apego é preconceituosa. A compaixão que está ligada a compreensão profunda da igualdade entre todos os seres é desprovida de preconceitos e é a verdadeira compaixão.

Qual o benefício que a compaixão tem a nos oferecer?

A compaixão nos dá força interior. Quando eu estou preocupado apenas comigo, "eu", "eu", "eu", isto faz com que a mente vá se estreitando cada vez mais. Quando nós nos focamos em nós mesmos e nossos problemas, eles ficam muito maiores do que de fato são, ao passo que, enquanto eu me volto para os outros, suas dificuldades e problemas, há uma expansão na minha mente e os meus problemas tornam-se muito reduzidos em comparação. Mesmo diante de uma circunstância adversa, aquilo passa a não perturbar tanto, ou menos do que seria o caso quando estou focado apenas sobre mim mesmo. Em segundo lugar, quando atravessamos problemas pessoais ou vivemos uma tragédia em nossa vida, circunstâncias que ocorrem independentemente à nossa vontade ou juízo, fatos que surgem involuntariamente, de fato, muitas vezes, isto é avassalador e na esteira disto surgem sentimentos muito poderosos de medo, frustração e ansiedade. Mas uma pessoa que tem um sentimento diferente, cuja mente de modo deliberado está sempre voltada para as dificuldades que as outras pessoas também experimentam, alguém que se preocupa constantemente em ajudar a aliviar o sofrimento dos outros, numa atitude voluntária de auxílio, isto traz uma abertura mental maior, de tal forma que, quando ela mesma passa por dificuldades extremadas, há disposição interna e uma base de estabilidade no seu interior que é capaz de sustentá-la. Então, quando falo da necessidade de nós cultivarmos compaixão, você pode se perguntar: isto significa que eu preciso então me sacrificar? Em absoluto. Ninguém está sugerindo que você deva negligenciar as sua próprias necessidades. A razão última de nós nos treinarmos para praticar a compaixão é que assim produziremos benefícios efetivos para nós mesmos e para os demais, alcançando a felicidade efetiva que tanto buscamos."

Na manhã do último dia, uma terça-feira, notou-se uma ligeira redução no número de participantes. O motivo era simples; nem todos puderam, como nós, ter o privilégio de afastar-se de seus afazeres por dois dias inteiros, tendo-se de levar em conta o tempo de viagem, pois havia pessoas do Brasil e do exterior ali presentes. Ainda assim, mais de mil e quinhentas pessoas não arredavam pé. As pessoas que assistiam pelos monitores de TV, no recinto externo, tiveram uma grande surpresa no início desta manhã. De repente, mais uma vez quebrando o protocolo, lá vinha o Dalai Lama para cumprimentá-los. Ele exigiu dos seguranças e do motorista que desviassem do caminho usual para chegar ao público que o estava vendo apenas pelo vídeo. Após um pequeno "rebuliço", inclusive com praticantes realizando prostrações (ao chão) à sua imediata passagem, ele despediuse e se encaminhou à Ópera. Ali, nem o calor do sol, que a certa altura penetrava completamente sem resistência os vitrais do recinto, transformandoo numa estufa, desanimou o público que atentamente acompanhava a voz do Prêmio Nobel da Paz. Falando em paz, amizade e união, ouvimos ele dizer:

"Nós somos seres gregários, que precisamos de bons amigos e companheiros com sentimentos que sejam verdadeiros. Muitas vezes, vemos amigos que não são verdadeiros, são artificiais, eles são amigos do seu dinheiro, da sua posição, do poder que você possa ter. Se um dia isto acaba, estes "amigos" desaparecem da sua vida. Você liga para eles e talvez eles não respondam ou talvez sejam curtos e grosseiros com você. Mas, como é que nós conseguimos um verdadeiro amigo? Um verdadeiro amigo é aquele que tem um sorriso verdadeiro e um sentimento genuíno, de calor verdadeiro, em relação a nossa pessoa. Quando alguém sorri para nós, imediatamente nos sentimos à vontade, o sorriso cria uma atmosfera que nos acolhe. Porém, se queremos nos beneficiar desta atmosfera, não podemos ficar esperando que tudo aconteça para nós vindo de fora. Nós precisamos fazer alguma coisa que vá dar nascimento a estes sentimentos genuínos dentro de nós e que esperamos dos outros. A prática da compaixão é capaz de gerar esta atmosfera.

Além disto, a prática da compaixão é muito benéfica para a nossa saúde. A medicina constatou que as pessoas que tem algum tipo de conexão espiritual, as que nutrem um certo respeito (e buscam auxiliar) com relação aos outros têm uma saúde melhor e ficam menos doentes do que aquelas que constantemente só se preocupam consigo mesmas e com seus próprios interesses. Estas, por exemplo, estão bem mais sujeitas a sofrer ataques cardíacos que as primeiras. Então, ao nutrirmos um sentimento genuíno de respeito e preocupação com os outros seres e pessoas, ao praticarmos a compaixão verdadeira, nós adquirimos uma estabilidade mental e uma força interior maior e o resultado disso é que a nos sa saúde também se fortalece.

Hoje no mundo nós estamos enfrentando um problema muito sério que é a violência e a criminalidade. Isto está ligado aos problemas econômico-sociais de cada país e também a grande diferença na distribuição da riqueza entre os diversos países. Há um bloco de países muito ricos e um bloco de países muito empobrecidos. No sistema educacional moderno também, nós encontramos uma ênfase muito grande dada ao desenvolvimento do cérebro e da capacidade intelectual conceitual e bem menor importância dada aquilo que se poderia chamar de desenvolvimento de um bom coração, um coração afetuoso. (Dalai Lama aponta respectivamente para a sua cabeça e , em seguida, para o seu coração) Antigamente, havia instituições religiosas encarregadas da educação e de alguma maneira havia uma preocupação maior com o aspecto do desenvolvimento de um bom coração na prática educativa. Mas, atualmente, os valores religiosos não são mais predominantes, este não é mais o caso, estes aspectos foram sendo deixados de lado e apenas o lado da inteligência está sendo preconizado. Assim, nós estamos assistindo a problemas em várias áreas. Na escola, não há mais quem cuide do cultivo de bons valores humanos e de um bom coração. No nível do lar, também é freqüente que uma criança não venha a receber integralmente o afeto e a atenção de que necessita para desenvolver este senso profundo de valor com relação à vida. Eu acredito que grande parcela de todos estes problemas políticos, econômicos, sociais, etc, que estamos enfrentando, tudo isto, está de alguma forma ligado a ausência do cultivo de um bom coração e de bons valores humanos ou do que seria um afeto verdadeiro entre todos nós.

A compaixão ecoa de uma forma tão importante sobre a sociedade humana. Todas as principais tradições religiosas do mundo, especialmente aquelas que têm um sistema filosófico, dão uma importância muito grande à compaixão. Podem haver nuances, ou pequenas diferenças com relação ao conceito de compaixão apresentados pelas diferentes tradições, mas, no fundo, todas enfatizam a necessidade de se cultivar a compaixão. Neste século que estamos vivendo agora, as diferentes tradições religiosas têm um papel muito importante e relevante a desempenhar neste campo do desenvolvimento e da promoção da compaixão. (Dalai Lama observa a presença de pessoas de diversas tradições religiosas presentes ao evento) A unidade, a harmonia entre as diferentes tradições religiosas é extremamente importante. Independentemente das divergências filosóficas entre as várias tradições, todas elas têm algo em comum: o seu potencial de auxiliar os seres humanos a alcançar a felicidade. Enquanto tento explicar aqui a importância dos valores humanos e da compaixão, eu estou falando do ponto de vista do meu próprio treinamento e da minha tradição. Eu venho do oriente e sou um monge budista, este é o meu treinamento. Mas é importante deixar claro que o fato de uma pessoa aceitar ou não a religião é uma questão meramente pessoal. Isto é algo que não se deve impor a ninguém. Porém, se uma determinada pessoa tem uma inclinação pelos valores religiosos de uma certa tradição, então, de modo geral eu aconselho esta pessoa a seguir os valores de sua própria tradição. Se uma pessoa deixa uma certa tradição para ingressar numa outra, isto pode gerar alguma confusão. Em geral, o meu conselho é que cada um se mantenha dentro da sua própria tradição examinando e buscando os valores positivos que certamente ela possui. Nós devemos considerar que todas as diferentes tradições têm um objetivo comum, e, mesmo sem deixar a sua própria tradição, uma pessoa pode se interes sar pela técnica existente em uma outra tradição. Ela pode aprender com isto e aplicar esta técnica na sua própria vida dentro da tradição que segue beneficiando-se de uma outra tradição, criando um respeito genuíno pelas demais tradições e compreendendo a unidade que perpassa todas elas, o que é fundamental.

As pessoas podem ser levadas a pensar que se você se interessa por religião, então você tem de se envolver com compaixão, cultivar a bondade e coisas assim, mas, se você não se interessa por religião ou não segue nenhum caminho religioso, então você não precisa se preocupar com este tipo de questão. Esta é uma atitude equivocada. Se nós observarmos a história, ou mesmo mais recentemente, nós vamos encontrar pessoas que, embora não seguissem ou cultivassem nenhum caminho religioso na sua vida, estas pessoas mantinham uma atitude de preocupação, de responsabilidade em relação aos outros - na verdade, se trata apenas de valores humanos básicos- e estas pessoas se tornaram mais felizes e mais úteis, se mostraram pessoas mais benéficas para a sociedade como um todo."

Foram dois dias magníficos recebendo ensinamentos (aqui só apresentados como mínima amostra) de um grande mestre da sabedoria universal e, principalmente, recebendo a irradiação de todo seu apreço e carinho por todos à sua volta, numa lição comovente de humildade e compaixão. Jamais poderíamos imaginar que nossa viagem, que antes possibilitaria a apenas um integrante uma visão um pouco mais próxima do Dalai Lama, fosse colocar-nos todos diante dele, sendo os três abençoados diretamente pela corporificação da sua generosidade do seu calor e do seu sorriso.

Não foi à toa que S.S. o 14º Dalai Lama foi ovacionado em pé ao final do encontro, com centenas de lenços coloridos voando para cima do palco; em certo momento, ele não se conteve e correu em direção ao público (para desespero dos seguranças) para olhar nos olhos de todos e de cada um, talvez tentando dizer que “sim, amigos, somos todos iguais e existe uma esperança de se alcançar a harmonia entre todos os seres”. Esta visão ficará imaculada na mente de cada uma das pessoas que ali estiveram, pois até agora ainda nos provoca saudades tão vívidas, como se dele nunca mais quiséssemos ser apartados.

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