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O texto a seguir, extraído da introdução de "A Bússola do Zen", um maravilhoso livro em preparação para ser publicado pela editora Bodigaya, escrito por um dos mais importantes mestres Zen comtemporâneos. Talvez um dos mestres mais brilhantes e bem humorados de todos os tempos. Com inesgotável energia e genialidade, cria uma série de novas expressões e adjetivos difíceis de se traduzir para o português.

Esperamos que, já neste primeiro contato, o leitor tenha uma pequena amostra desta poderosa mente e saiba responder a esta tão simples questão:

Aonde você vai?
por Mestre Zen Seung Sahn Dae Soen-sa-Nim

Tradução Fernanda Ferreira de Ferreira (*)

Há muito tempo atrás o mundo era um lugar muito simples. Atualmente, esse mundo está muito complicado. E a principal razão para isso é que existem muitos seres humanos vivendo nesse planeta. A população humana aumentou rápido demais. Em 1945 havia cerca de dois bilhões de pessoas vivendo por aqui. Através dos milhares e milhares de anos de história humana, apenas dois bilhões de pessoas restaram na terra, e isto seria suficiente. Se comparada aos dias de hoje, a mente das pessoas era relativamente simples e clara. Mas, somente nos últimos cinqüenta anos, desde o fim da Segunda Grande Guerra, mais três bilhões de pessoas apareceram e agora os seres humanos tornaram-se muito complicados. Há, hoje, aproximadamente seis bilhões de pessoas no mundo inteiro e alguns cientistas dizem que nos próximos trinta anos outros três bilhões aparecerão. Estes fatos estão diretamente conectados ao súbito aumento da quantidade de sofrimento que os humanos, bem como outros seres, estão experimentando agora. Vamos olhar para isso mais de perto.

Atualmente os humanos vivem mais próximos uns dos outros e, devido a isto, suas relações tornaram-se mais complexas. O desejo por coisas materiais torna-se mais profundo e mais forte. Seu pensamento é mais complicado, sua vida é mais complicada e, como conseqüência, há muito mais sofrimento do que jamais houve antes. Até mesmo os tipos de sofrimentos no mundo tornaram-se mais complicados a medida que os humanos fizeram surgir novas armas e novas maneiras de ferir uns aos outros. E os seres humanos não causam sofrimento somente aos seus semelhantes. Hoje em dia, nós levamos muito mais sofrimento a todos os outros seres desse mundo.

Nós machucamos o ar, a água, a grama, as árvores, tudo. Os seres humanos devastam florestas inteiras, acabando com o cinturão verde. Nós poluímos o ar, a água e o solo. Os seres humanos sempre dizem querer a liberdade mas, na verdade, são os ditadores número um nesse mundo.

Atualmente, então, é muito importante que os seres humanos acordem. Eles deve-riam, sem demora, realizar o seu trabalho correto. Por que você vive neste mundo? O que você está fazendo neste mundo? Quando você nasce, de onde você vem? Quando você morre, para onde você vai? Todos dizem, “Eu não sei.” Este é o ser humano. Seres humanos pensam que seres humanos são animais muito inteligentes. Mas, a despeito de toda essa inteligência, se você olhar bem atenta-mente a tudo o que tem acontecido nesse mundo verá que os seres humanos são, na verdade, os animais mais estúpidos, pois seres humanos não entendem seres humanos. Um cachorro entende o que um cachorro deve fazer e gatos entendem o que gatos devem fazer. Todos os animais entendem aquilo que têm de fazer e simplesmente o fazem. Mas nós, por não entendemos qual é o trabalho e caminho corretos que devemos trilhar neste mundo, vivemos somente para nós mesmos. Enquanto isso, enquanto o tempo passa, todos envelhecem e morrem. Quando você morre, para onde você vai? A despeito de toda a inteligência e esperteza, os seres humanos não entendem a resposta a esta importantíssima pergunta.

Se quisermos entender a nós mesmos e ajudar a todos os outros seres a livrarem-se do sofrimento, devemos primeiro entender de onde vem todo esse sofrimento do mundo. Tudo provém das nossas mentes. O ensinamento budista mostra que tudo vem da causa, condição e resultado primários. Isto significa que alguma causa primária, quando ocorre sob certa condição, produzirá sempre um certo resultado. Assim, qual é a causa do aparecimento de tantos seres humanos nesse mundo e qual é o resultado disto? Por que existe tanto sofrimento e por que ele parece aumentar a cada dia? Talvez a razão mais importante para um tão dramático aumento do sofrimento nesse mundo seja o crescimento do consumo humano de carne. Antes da Segunda Grande Guerra os seres humanos não comiam tanta carne. Na Ásia, as pessoas comiam carne somente em ocasiões especiais, talvez duas vezes por ano, nos feriados mais importantes. Atualmente os asiáticos comem carne várias vezes por dia. O mesmo tem sido verdadeiro no Ocidente por várias gerações. Este século está assistindo a um enorme aumento na quantidade de consumo de carne no planeta. Mas de que maneira, afinal, isso se conecta ao dramático aumento do sofrimento no mundo inteiro?

Durante séculos, se um homem quisesse comer carne, ele ia até a floresta e abatia talvez um ou dois animais com seu arco e flecha – piitchhuu! Depois ele ia para casa e os comia com sua família. Esse animal morria. Mas, havia um tipo de relação entre o animal e a pessoa que o matava e o comia. O carma de ambos estava, de certa forma, claro. Quando o animal morria, ele poderia, talvez, entender um pouquinho do que estava acontecendo: “Ah! Este homem vai me comer! Talvez, numa próxima vida, eu o pegue!” Assim, o carma era muito simples: acontecia somente entre este homem e este animal. E podia ser resolvido entre eles restaurando, conseqüentemente, o equilíbrio, através de uma simples operação de causa e efeito. No entanto, no século vinte, a tecnologia humana cresceu rápido demais. Muitas armas e técnicas especiais têm sido criadas para matar um crescente número de animais. A cada dia milhões e milhões de animais são rotineira e mecanicamente chacinados em todos os cantos do mundo simplesmente para satisfazer as mentes-desejosas dos seres humanos. Agora uma só máquina pode matar muitos e muitos milhares de animais muito rapidamente. Somente um homem aperta um botão numa fábrica, talvez até longe dos animais. Quando esses animais morrem, muitas consciências são súbita e violenta-mente liberadas de seus corpos. Essas consciências dos animais então, ficam vagando, vagando, vagando por aí a fora, a procura de um novo corpo. Aonde eles vão, eles não sabem.

O Buda nos ensinou que tudo vem da causa, condição e resultado primários. Quando tantos milhões de animais são mortos desta maneira, todos os anos, algumas das suas consciências renascem, inevitavelmente, como humanos. Talvez apenas 0,00001 tornem-se seres humanos, mas ainda assim são muitos humanos com algum tipo de consciência animal operando dentro de si. Se você olhar para alguns humanos nesse mundo, hoje em dia, verá que embora tenham rosto e corpo de humanos, suas consciências não são completamente humanas. Algumas pessoas têm consciência de cachorro, outras têm consciência de gato. Outras ainda têm consciência de coelho ou consciência de cobra. Mentes de vaca, mentes de porco, mentes de galinha, mentes de leão ou de tigre e mentes de cobra estão todas misturadas, juntas. A maioria das pessoas vive com talvez cinco ou dez por cento da nossa consciência humana original funcionando dentro delas e o resto é de alguma consciência animal que controla as suas mentes. Em vez de possuírem a capacidade humana original para o amor, a cooperação, a compaixão, as pessoas atualmente só fazem lutar umas com as outras e com o mundo. Elas não conseguem efetuar uma correta ação-conjunta com outros seres humanos.

Isso não significa dizer que exista algo de errado com os animais. Mas, quando você olha para esse mundo, você vê que os animais tendem a agir em conjunto somente com a sua própria espécie, e não gostam de outros animais. Mentes-cachorro gostam de mentes-cachorro; eles não agem com mentes-gato. Cobras, leões e coelhos não se dão bem uns com os outros. Uma consciência-cobra segue somente outra mente-cobra não possuindo nenhuma ação compassiva que a conecte com o sofrimento que algum outro ser possa estar experimentando. Pássaros também não gostam de outras espécies de pássaros e, então, formam grupos da sua própria espécie e voam juntos por aí. Se alguém ataca um deles, geral-mente o grupo inteiro revidará. Esta é a natureza dessa mente-animal. A situação política hoje no mundo é a mesma. Vivemos num mundo cheio de muitos pequenos países, grupos políticos e étnicos – muitos deles com suas milícias particulares, todos lutando entre si. Crianças envolvem-se com armas e outras formas de violência cada vez mais cedo, fazendo contra outros seres humanos, coisas que há dez ou vinte anos atrás, sequer ouvia-se falar.

Tudo isso provém do fato de termos consciência animal demais dominando nossas mentes. Hoje, inúmeros seres humanos são assim. Eles possuem algum tipo de consciência animal no seu interior. O sofrimento é muito maior, pois esses seres não conseguem conectar as suas consciências à vida humana em um mundo super populoso. A maioria das pessoas está voltada somente aos seus próprios interesses. Há uma tendência maior para que apareça a mente briguenta. Elas seguem somente as suas próprias idéias e opiniões, independentemente do que esteja acontecendo ao seu redor. Algo está desequilibrado e, como conseqüência natural, o sofrimento aparece.

Eu tive uma aluna na América, nos anos 70, que possuía várias cobras de estimação. Ela as amava muito e as carregava, aonde quer que fosse, enroladas ao seu pescoço. Muitas pessoas sentiam medo das cobras, mas ela as tratava de um modo extremamente natural. Elas até mesmo dormiam na mesma cama durante a noite. Num dia em que ela veio ao Centro Zen eu indaguei-lhe: “Você virá meditar no retiro de três dias do próximo fim-de-semana?”

“Não,” respondeu ela.

“Por quê?”

“Não consigo encontrar ninguém para tomar conta das minhas cobras. Eu as amo muito e ninguém poderia cuidá-las bem enquanto eu estivesse no retiro. Por isso eu não posso meditar.”

Então eu disse a ela: “Você não vai nos causar problemas. Venha para o Centro e pratique bastante. Você pode trazer as suas cobras. Eu falarei com o responsável pela casa e nós lhe daremos um quarto individual, assim você poderá meditar e cuidar das suas cobras. Que tal lhe parece?”

Ela ficou radiante: “Mas que ótimo. Isso é maravilhoso!” Então ela veio para o Centro Zen e participou do retiro.

No primeiro dia do retiro o irmão desta mulher telefonou para o Centro. Estava muito ansioso. “A minha irmã está aí? A minha irmã está aí? Nossa mãe está muito doente. Está internada num hospital, muito longe. Nós temos que ir vê-la o mais rápido possível.”

Mas ao invés de ficar triste pela mãe, a mulher ficou foi muito enraivecida! “Não, eu não posso ir. Quem é que vai cuidar das minhas queridas cobras enquanto eu estiver ausente? Se me for, elas podem morrer! Alguém pode alimentá-las de modo errado. Você sabe como é, cobras são muito temperamentais...” Este foi o discurso que ela apresentou ao irmão. Mas ele não se surpreendeu, já conhecia a sua mente há muitos anos. Simplesmente desligou o telefone.

Vários dias depois, uma das cobras ficou doente. Não comia a comida que lhe era dada e passava deitada num canto. A mulher começou a ficar mais e mais preocupada. Parou de vir às meditações e telefonou à vários veterinários, na tentativa de encontrar algum que entendesse profundamente de cobras. Final-mente, ela abandonou o retiro para levar a cobra ao veterinário. Ela não deixou o retiro para ver a sua mãe no hospital, mas quando sua cobra estava sofrendo, sua mente ficou profunda e imediatamente perturbada. Isso é muito interessante!

A consciência desta mulher sentia mais pelas cobras do que por outros seres humanos. Ela demonstrou mais compaixão pelas cobras do que pela sua própria mãe! O significado por trás disso é que a consciência desta mulher era parte humana, mas parte cobra. Ela não era capaz de praticar ação-conjunta com outros seres humanos, mas conectava-se muito facilmente, e de maneira automática, à situação das cobras. Ela não tinha muita compaixão por nada, exceto por elas. Isso é loucura! Mas, hoje em dia, como muitos seres humanos são assim, já não os consideramos mais como loucos. Então essa é uma estória bem interessante.

A consciência dos animais não é nem boa, nem má. Mas, seres humanos têm idéias e desejos muito fortes e, então, ter dentro de si alguma consciência animal não é tão bom, pois estes não a podem controlar. Quando um animal está com fome, ele come. Quando está cansado, dorme. Muito simples! Mas, seres humanos comem e ainda assim não estão satisfeitos. Embora seus estômagos estejam cheios, eles saem por aí e praticam muitas ações más contra este mundo: eles matam animais para se divertirem ou usá-los como decoração. Alguns pescam por esporte. Depois, todos aplaudem: “Ah! Que maravilha!” Eles riem, sorriem e apertam as mãos. Os humanos sentem-se muito felizes dando-se tapinhas nas costas e tirando fotografias. Considera-se este um dia de muito sucesso. Mas, olhe para o peixe. Ele não se sente feliz, sabe? O peixe está se contorcendo – está sofrendo! “Onde está a água? Onde está a água? Por favor, eu quero a água !” Eles estão rindo, e o peixe está ali, sofrendo e morrendo, bem diante de seus olhos. A maioria dos humanos não é capaz de se conectar com o enorme sofrimento que acontece bem no meio deles. Esse tipo de mente é bastante comum nos dias de hoje. E isso não é maravilhoso. A mente que vive assim não tem compaixão pelo sofrimento do mundo.

Seres humanos matam animais não somente para alimento. Eles tiram as suas peles para fazer sapatos, chapéus e roupas. Isso também não é o suficiente. Eles retiram os ossos desses animais para fazer colares, ou botões, ou brincos. Em resumo, eles matam muitos e muitos animais a fim de vender as suas partes e ganhar dinheiro. Devido a esses desejos e essa consciência animal forte, seres humanos lutam entre si e destroem a natureza. Eles não dão valor à vida. E agora, então, o mundo inteiro enfrenta muitos problemas: problemas com a água, problemas com o ar, problemas com a terra e com os alimentos. Muitos novos problemas aparecem a cada dia. E eles não acontecem acidentalmente. Seres humanos criam cada um desses problemas. Cachorros, gatos, leões ou cobras – nenhum animal cria tantos problemas para esse mundo quanto os seres humanos. Humanos não entendem a sua verdadeira natureza por isso eles usam seu raciocínio e seu desejo para gerar tanto sofrimento para o mundo. É por essa razão que se diz que o ser humano é o animal ruim número um do mundo. Algumas tradições religiosas chamam a esse tipo de situação de “o fim do mundo”.

Esse é o fim, somente, da atual consciência humana. A natureza humana original não possui esse problema. No ensinamento budista, em vez de chamarmos a isto de ‘o fim do mundo', nós dizemos que agora tudo está completamente maduro. É como uma fruta crescendo numa árvore. Primeiro aparece a inflorescência no ramo. Com o passar do tempo essa inflorescência produz um pequeno fruto havendo, então, a queda das pétalas da flor. O pequeno fruto gradualmente amadurece, trans-formando-se num fruto que vai crescendo a medida que o tempo passa. No começo esse fruto é verde mas, com o tempo, o lado que está voltado para o sol começa a adquirir uma linda cor. Nesse ponto, somente um lado está corado enquanto que o outro ainda encontra-se esverdeado. Mais tempo se passa e o fruto, agora, está tomado de uma cor maravilhosa. Ele poderá ter uma linda forma e uma bela cor, mas ainda não possui o perfume, pois o seu interior ainda não amadureceu. Com um pouco mais de tempo, o fruto torna-se completa-mente maduro.

Até chegar a esse ponto, foi preciso que um longo tempo transcorresse e transformasse a inflorescência em flor e, após, em fruto. Durante vários meses, toda a energia da árvore subiu das raízes em direção às folhas, recolhendo a energia do sol para finalmente produzir o fruto. Todo esse processo aconteceu através de um longo período de tempo, um ano de mudanças e crescimento na árvore, na inflorescência, na flor e no fruto.

Mas agora a energia que fluía da árvore para o fruto é cortada. A partir desse ponto, após o fruto ter amadurecido por completo, nele começam a ocorrer mudanças muito, muito rápidas, em questão de apenas alguns dias. Sua forma, bem como sua cor já não são tão bonitas. Mas, no seu interior o sabor está tremendamente doce e o seu cheiro, muito forte. Ele começa a ficar ‘passado'. Logo algumas manchas aparecem no fruto, pequenos pontinhos pretos, indicando que a fruta está ficando ‘passada'. Após alguns dias já são inúmeras as manchas na fruta. Depois que essas manchas aparecem na fruta, já não é mais possível retardar ou deter o processo de apodrecimento. A fruta apodrece apenas alguns dias após ter amadurecido. Quando apodrece, não pode ser comida. Mas no seu interior, a fruta possui sementes. Quando a fruta apodrece total-mente, as sementes atingem a maturidade.

A situação atual do mundo é como a da fruta. Muitos e muitos séculos de desenvolvimento humano fizeram essa fruta. Por muito tempo, a inflorescência foi somente a crença em algum Deus ou poder exterior. Depois o fruto apareceu e se desenvolveu. Mas somente um lado amadureceu primeiro; somente um lado tinha uma bela cor e sabor delicioso, enquanto que o outro não. Foi a emergência do capitalismo e do comunismo no mundo. Mas, recentemente as mudanças nessa fruta começaram a ter lugar muito rapidamente. O comunismo desapareceu e agora a fruta inteira está de uma só cor. A fruta amadureceu e tem somente uma cor e um sabor: dinheiro . Atualmente já não há mais ideologia para uma crença distinta. Este mundo inteiro somente quer dinheiro, e a energia de todos vai muito tenazmente nesta direção. Nesse mundo não há um verdadeiro caminho – há somente o sabor do dinheiro. Muitos lugares podres já aparecem: lugares como o Oriente Médio, Ruanda, Iugoslávia, Coréia do Norte, até mesmo na América, Rússia, China e Japão. Desde que o mundo comunista partiu-se, vemos o surgimento de vários grupos e nações menores, todos lutando entre si. Há ainda a difusão de vários exércitos privados e a rotina de compra e venda de armas de destruição de massas.

Essa fruta, então, vem crescendo há muito tempo. Mas uma vez madura, ela apodrece muito, muito rápido. Qualquer fruta que fica podre não pode ser comida. No entanto, no interior da fruta existem as sementes. As sementes agora estão prontas: elas podem fazer qualquer coisa.

Assim, os seres humanos deveriam acordar-se logo e encontrar sua semente original, sua natureza original. Mas, como é que retornamos à nossa natureza original? Há cerca de dois mil e quinhentos anos atrás, o Buda vivia numa situação muito confortável. Ele era um príncipe chamado Sidarta e possuia tudo o que queria. Mas ele não compreendia a si próprio. “O que sou eu?” “Eu não sei .” Naquele tempo na Índia, a religião Hindu ligada aos brâmanes, era a religião principal. Mas o bramanismo não lhe oferecia respostas corretas às suas perguntas a cerca da natureza da vida e da morte. Então, Sidarta abandonou o palácio, foi para as montanhas e praticou várias austeridades espirituais por seis anos. Ele encontrou o Caminho do Meio entre a auto-gratificação e o extremo ascetismo. Certa manhã, enquanto meditava sob a árvore Bodi, ele viu uma estrela no céu do oriente. Naquele momento - BOOM! – o jovem príncipe Sidarta iluminou-se. Acordou-se e tornou-se um Buda. Ele compreendeu o Eu. Isso significa que o Buda alcançou a verdadeira natureza de um ser humano independente-mente de qualquer força exterior, religião ou deus. Esse é o ensinamento do Buda.

Praticamente nenhum dos seres humanos que vive no mundo atualmente entende a si mesmo. O Buda foi simplesmente um homem de grande determinação, com uma mente-deter-minada, que nos ensinou a importância de resolver exata-mente aquele ponto. Antes de morrer você deve definir a sua direção. Você deve alcançar o que você é. Se você leu muitos sutras, ou canta para Amitaba, isso lhe será de alguma ajuda. Não é bom, nem mau. Mas, por que você lê tantos sutras? Por que você experimenta este canto do Buda Amitaba? É muito importante ver com clareza a sua direção. O Buda nos ensinou a importância de encontrarmos a nossa verdadeira direção nesta vida. “O que sou eu? Eu tenho que alcançar o meu verdadeiro self – essa é a coisa mais importante que eu posso realizar.” Se você alcança o seu verdadeiro self , então você chega ao seu caminho correto. Quando você nasce, de onde você vem? Quando morre, para onde você vai? Nesse exato momento, qual é o seu trabalho correto? Todos entendem qual o trabalho desse corpo. Algumas pessoas têm o trabalho de advogado, ou de doutor, ou de motoristas de caminhão, trabalho de enfermeiro, trabalho de estudante, trabalho de marido, trabalho de esposa, trabalho de criança. Esses são os trabalhos do nosso corpo, nosso trabalho exterior. Mas, qual é o trabalho do seu verdadeiro self ? O Buda nos ensinou que, vida após vida, nós devemos percorrer o Caminho do Grande Bodisatva e auxiliar a libertar todos os seres do sofrimento. Para liberar todos os seres, é importante que primeiro você libere a si mesmo. Se você não é capaz de liberar a si mesmo, como poderá querer liberar outras pessoas? Então é por isso que nós devemos alcançar o nosso verdadeiro self , a nossa verdadeira natureza. Essa verdadeira natureza não pode ser encontrada em livros ou no pensamento conceitual. Nem uma Pós-graduação, não importa quão maravilhosa seja, chegará sequer perto de um momento de claro insight sobre a nossa própria e verdadeira natureza original. E a passagem mais direta para esta experiência é a meditação. Esse é um ponto muito importante.

Meditação correta significa entender meu verdadeiro self . E esse caminho começa e acaba com a pergunta: “O quê sou eu?” É um ensinamento muito simples, nada especial. Quando você faz essa pergunta muito profundamente, tudo o que aparece é “não sei”. Todo o pensamento pára por completo e você retorna à sua mente antes-dos-pensamentos. Se você alcançar este “não sei” você já terá alcançado o seu verdadeiro self. Você terá retornado à sua natureza original que é a mente antes do surgimento do pensamento. Desta forma você poderá penetrar no seu correto caminho, alcançará a verdade e a sua vida funcionará correta-mente para liberar todos os seres do sofrimento. Isto se chama “despertar”. Esta é a experiência da verdadeira meditação.

(*) Dae Soen-sa-nim é um título honorífico e pronuncia-se algo como: "Dai samsanim"

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